Em
todos os artigos publicados anteriormente, sob análise do meu pai; fui alertado
para o axiomatismo¹ presente neles. Com efeito, digo que não é proposital,
apenas passo para o papel as idéias oriundas da leitura de renomados escritores,
que obviamente publicam seus trabalhos com linguagem sofisticada, natural em
seus nichos.
O que é o ódio? Por definição é o
seguinte: “o conhecemos como um
sentimento de aversão, de rejeição muito intensa, que uma pessoa sente-se em direção a outro, ou algo assim. O ódio é o
sentimento mais negativo que o ser humano pode experimentar em sua vida”. Percebe-se
que o ódio, sob olhar cotidiano, enfim, de uma pessoa emocionalmente estável, é
apenas mais um sentimento. Entretanto, como podemos analisar o ódio sob a
perspectiva de uma pessoa depressiva? Respondo, dizendo, o ódio nesse contexto
deve ser observado mais de perto, fora do senso comum.
Outro dia, lendo sobre o assunto
encontrei um discurso do filósofo Pondé, e nele continha sua análise sobre o
homem e sua importante ligação de sentido com o futuro, dando um foco especial no ódio. Basicamente, vivemos em
prol do futuro; bem, explico: para que possamos viver saudavelmente o presente,
precisamos segundo Pondé estar sempre projetando nossas vidas ao futuro.
Todavia, esse futuro precisa contemplar o que muitos conhecem como “metas”, “sonhos”,
“expectativas” e etc. Quando cada meta vai sendo vencida, outra ou
outras são criadas add infinitum².
O depressivo em muitos casos
observados – não todos – não consegue projetar metas, sonhos ou perspectivas
para seu futuro. Tão logo, vivencia apenas a dor interminável, nada mais que
isso; o que gera um vazio existencial. Tão logo, passam por vários estágios da
melancolia, que vão desde pequenas angústias, a ataques de pânico, depressão
profunda ao catatonismo³.
Os medicamentos ansiolíticos e
calmantes, entram na vida do depressivo, e por algum tempo, alivia os sintomas,
mas sempre causando em variadas medidas o torpor. O grande problema, é que o
medicamento tenta equilibrar os níveis de serotonina no cérebro, e que apesar
de quimicamente conseguir tal feito, não soluciona o problema. Apesar de a
depressão ser diagnosticada como um distúrbio químico do cérebro, o gatilho é
100% psíquico. Nesse contexto, os remédios com o tempo tendem a não fazer o
efeito esperado. O sofrimento mental vai evoluindo para pior. A cada visita ao
psiquiatra vemos seus medicamentos aumentarem as doses, ou serem trocados, ou até
mesmo sendo associados a outros para potencializá-los, parece um caminho sem
fim.
Se o depressivo professar alguma fé,
então ele recorre a ela; se ele tem filhos, recorre a eles. Ambas as situações
ajudam muito, todavia, não solucionam o problema. Por que nada disso finaliza o
problema? Não tenho a mínima idéia, porém empiricamente é isso que ocorre.
Talvez porque somos como Jesus disse, homens de pouca fé. Por outro lado,
por mais que amemos nossos filhos, ainda assim, existe um sentimento nada nobre
que repousa sob todos nós que é o egoísmo. O fato é que, nesse contexto, o
depressivo não encontra força nessas duas últimas situações para sair do abismo
existencial.
O ódio entra na vida do depressivo,
portanto, como uma gasolina adulterada sabe-se lá com o que, que quando lançado
ao tanque de um carro velho e defeituoso, acaba por fazer piorar ainda mais o
seu funcionamento. O carro anda falhando, soltando fumaça, faz barulho,
até o momento que suas engrenagens não suportam mais e ele pifa de vez. O ódio
na vida do depressivo de um jeito às avessas, o faz sentir vivo. Substitui
mesmo que de forma temporária o sentimento da melancolia, afinal qualquer coisa
é melhor do que viver 24 horas em sofrimento mental.
Pergunto, portanto, o que resta ao
melancólico quando o ódio acaba (porque passa que nem uma gripe!)? Respondo, dizendo, um completo vazio
existencial, que faz com que o depressivo muita das vezes tenta acabar com a própria
vida – afinal “na visão do depressivo”, qualquer coisa é melhor do que definhar
em depressão - e isso é um fato, os
índices de suicídio só fazem aumentar.
É possível sair desse abismo? Creio
que sim, todavia, dar certeza seria desonestidade intelectual. A partir do
momento que o depressivo tem ciência do que lhe adoece já é um começo.
Descobrindo ou não a causa, seria interessante propor para si metas, para que
em um período de médio a longo prazo, na medida que as mesmas forem vencendo; possa
criar novas e assim sucessivamente. Porque a tentativa é plausível; pelo simples fato de trabalhar com o que o estudo do comportamento animal chama de reforço negativo4 .
Um exemplo claro seria o seguinte: imagine um homem fumante, obeso e já acima dos 40 anos; agora imagine que ele sofreu um infarto. O normal é que se ele escapar desta crise em especial, no futuro ele terá que mudar de hábito, ou seja, deixar de fumar, melhorar sua alimentação e praticar atividades físicas. No início desse processo ele não terá prazer algum em provocar as mudanças; todavia, não tem opção, ou faz isso, ou morre. O provocar a mudança mesmo sabendo do desconforto é o reforço negativo. Apesar de se sentir extremamente desconfortável, ele irá até o fim para impedir um novo infarto. O melancólico nesse contexto, assemelha-se ao exemplo citado, se ele realmente quiser a cura, precisará passar pelo reforço negativo; tanto da aceitação da doença, quanto a todas as atividades que ele racionalmente terá que realizar. Concluo, dizendo, não tenha medo do futuro, melhor, não tenha medo do minuto seguinte, da hora seguinte, do dia seguinte. Não tenha medo de compromissos, crie pequenos e os encare; ter medo é normal, mas o medo não pode causar paralisia. Siga um passo de cada vez; no fim, quem sabe encontre alegria, satisfação, autoestima, sonhos ao invés do nada.
¹ Em lógica, existe o sistema axiomático, que é uma forma de
teoria dedutiva, construída a partir de termos iniciais, e que foi desenvolvida
por meio de regras de definição. Em matemática, existe também um sistema
axiomático, que é um conjunto de axiomas, que podem ser usados para a derivação
lógica de teoremas.
² Ad infinitum é uma expressão em Latim que significa literalmente "até o infinito",
"sem limite ou sem fim", para indicar um processo ou operação que
continua indefinidamente.
³ A Catatonia é uma
perturbação do comportamento motor que pode ter tanto uma causa psicológica ou
neurológica. A sua forma mais conhecida envolve uma posição rígida e imóvel que
pode durar horas, dias ou semanas. Mas também pode se referir a agitação motora
sem propósito mesmo sem estímulos ambientais. Uma forma menos extrema de
catatonia envolve atividade motora muito lenta.
4O condicionamento operante (por vezes
referido como condicionamento instrumental) é um método de aprendizado que
ocorre através de recompensas e punições para o comportamento. Através de
condicionamento operante, uma associação é feita entre um comportamento e uma
consequência para esse comportamento.

Sábias palavras, Toni!!!
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